A Percepção de paternidade responsável existe, mais ainda fica distante das tarefas cotidianas e os afazeres domésticos.

As lutas pela equiparação social e econômica das mulheres com filhos tem convergido há tempo numa reivindicação quase exclusiva: que os pais assumam com responsabilidade suas obrigações na criação e desenvolvimento dos filhos. De compartilhar tarefas diárias como alimentar e banhar os filhos ou cuidar da mobilidade nas suas atividades até dividir o papel de disciplinar como também o de ensinar afetos. Esse compartilhamento chamado de modelo de “paternidade responsável” é cada vez mais um consenso na sociedade, mas até que ponto ele de fato ocorre e é implementado pelos próprios pais?

Paternidade como guia conceitual-intelectual

Pesquisa inédita da Market Analysis consultou mais de 600 mães com filhos entre 3 e 13 anos morando nas principais capitais do país e revelou que a transmissão de valores éticos e de disciplina assim como a sensação de proteção são considerados os aportes mais importantes que o mundo masculino pode fazer à criação dos filhos. Mais de 1/3 (35,2%) do papel percebido dos pais tem a ver com esses aspectos. Essas funções são também aquelas em que os pais se saem melhor, na opinião das mães.

Onde os pais mais deixam a desejar? Sem surpresas, é no terreno dos cuidados e atenção às tarefas rotineiras como banhar, cuidar do sono, alimentar, preocupar-se pelas tarefas da escola. E, surpreendentemente, os pais também estão no débito no referido a brincar com suas crianças. Só que as próprias mães lhe outorgam uma importância secundária a todas essas atividades, com exceção das tarefas da escola, dando assim um desconto ao mundo paternal. Essas funções ocupam apenas 1/8 (15,6%) do que significa ser um bom pai na cabeça das mães. Dessa perspectiva a responsabilidade paternal esperada se define em termos tradicionais e de cunho intelectual ou conceitual, perpetuando não apenas uma divisão convencional de funções mas também mantém a paternidade afastada do dia-a-dia operacional e manual.

Os 4 cenários da paternidade

A combinação entre importância das ações e desempenho dos pais em dar conta desses comportamentos permite identificar 4 situações da paternidade conforme percepção das mães. O gráfico abaixo ilustra essas 4 ocorrências:

Fatores parcial ou absolutamente importantes como ajudar na escola, disposição para ouvir ou brincar com a criança são os aspectos onde pior desempenho apresentam os pais. É o que a Market Analysis chama de “paternidade em falta”. Esse tipo de atividades ilustram o pior descompasso existente e é a base das frustrações maternais a respeito do desempenho dos pais. São comportamentos que requerem continuidade presencial, engajamento emocional e comprometimento intelectual não distanciado, criatividade além das convenções. É interessante notar no gráfico como outros dois comportamentos: “incentiva a adotar inovações” e “ensina novidades” beiram a fronteira com a paternidade em falta, achado consistente com os conteúdos deficitários da paternidade atual.

Já aqueles comportamentos que as mães de hoje consideram como sinônimo de responsabilidade paternal, tais como transmitir um senso de ética e disciplina, proteger, servir de modelo ou mostrar afeto, todos portanto de alta importância, são também os que melhor avaliação recebe pelas mães. É o cenário de “paternidade resolvida” onde se alinham expectativas e condutas. Os aspectos que compõem essa classe de paternidade cristalizam um exercício de ser pai ancorado na reprodução da autoridade distanciada e esporádica, presente principalmente em termos conceituais e intelectuais. Conexões sensoriais e emotivas também fazem parte dessa noção de paternidade (demonstrações de afeto, diálogo), embora sem implicações de entrosamento com o cotidiano da criança.

No outro extremo estão condutas tidas como pouco importantes embora onde os pais se saem bem tais como ajudar a cobrir despesas. É a esfera da “paternidade irrelevante” pois ela é vista como de relevância marginal. Por último, temos uma série de condutas pobremente avaliadas, mas que também não são muito valorizadas pelas mães, justamente as que lidam com as operações manuais das tarefas domésticas. É a esfera da “paternidade em conflito”, pois trazem à tona o foco do dissenso entre as leituras tradicionais e modernas sobre o papel dos pais. São atividades que costumam ser problematizadas pelos grupos de mães organizados em torno da bandeira da igualdade assim como das associações que levantam a bandeira de uma maior participação masculina no desenvolvimento da criança.

Naturalizando uma paternidade limitada?

Se há pontos cegos e descompassos entre as bandeiras da paternidade modernizada levantadas pelas ONGs e grupos de mães e a realidade da paternidade exercida percebida por elas, por que é que as mães não julgam com maior crítica a postura cotidiana dos pais?

Uma suposição é que o mundo maternal brasileiro contesta com menos fôlego a maneira convencional de encarar a paternidade, isto é, na prática não esperam nem adotam as propostas do ativismo pro-paternidade responsável. Por outras palavras, a típica mãe brasileira se contenta com os progressos acontecidos até o momento em termos de engajamento paternal sem cobrar muito mais.

A pesquisa parece apoiar essa perspectiva com nuances. Por um lado, uma maioria diz que prevalece o consenso entre os pais com relação ao que é importante na vida da criança (65%), assim como na maneira como a disciplina e regras de conduta são transmitidas (60%). Ainda, uma maioria mais enxuta nega que o papel de cada pai seja alvo de discussões e conflitos (54%). Essas maiorias supõem que prevalece uma gestão consensual da criação da criança, embora entre ¼ e mais de 1/3 das famílias encarem essas questões de modo conflitivo.

Por outro lado, há opiniões divididas com relação a quão equitativa é a distribuição das tarefas: 48% das mães questionam a justiça com que pai e mãe cuidam das tarefas de casa e 44% fazem o mesmo com relação às tarefas escolares das crianças. E é o consenso quase absoluto de que são as mães quem cuidam das saúde e higiene da prole (87%).

A paternidade surge como um terreno de ambiguidades para a mulher brasileira. Ao mesmo tempo em que elas buscam cada vez mais a participação paterna ativa, elas outorgam pouca importância à colaboração paterna nas tarefas que de fato as desafogariam neste papel. A naturalização da mulher na função de cuidado acaba acometendo até mesmo aquelas que reivindicam maior equilíbrio de participação parental. Com base na pesquisa, é possível inferir que a divisão social e sexual do trabalho, apesar de estar em transição, ainda estabelece expectativas mais baixas com relação à masculinidade e à paternidade.

Rumo à uma relação mais igualitária de responsabilidade

A discussão a respeito da participação masculina e responsabilidade dos homens nos cuidados com os filhos tem ganhado cada vez mais centralidade no debate de gênero vigente. A distribuição desigual do cuidado com a criança impacta também nas desigualdades de gênero e revela a importância do envolvimento dos homens em um modelo de paternidade mais abrangente e inclusivo das tarefas cotidianas e de cuidado.

Omitir problematizar essa função perpetua a ideia de que a contenção emocional e o amparo físico são papeis exclusiva e inerentemente femininos. Ao incluir os homens nas funções de cuidado também se enfrentam às desigualdades de gênero, viabilizando uma sociedade mais equitativa. Nesse processo, o exercício ativo e contínuo de uma paternidade responsável pode ser uma via através da qual homens e mulheres questionam o modelo de masculinidade atual, rumo à uma sociedade mais igualitária.

*Autor: Leandro Ziotto, pai do Vini e fundador da Plataforma 4daddy. Integrante da Rede Nossa SP, Rede Nacional Primeira Infância e Imagina 2030.

Ficha técnica: A pesquisa da Market Analysis entrevistou online 603 mães com crianças entre 3 e 13 anos entre os dias 23 e 30 de novembro de 2018. A amostra selecionou mães participantes no maior painel de internautas ativos no Brasil, distribuídas em termos de sexo, idade e classe social de modo a representar a população geral. As entrevistadas residem em 519 municípios diferentes das 5 macro-regiões do país.

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