Paternidade: um vetor do processo de autoconhecimento do homem

De tantas expressões que me rodeiam no lindo e desafiador universo da paternidade, existem duas ações que me puxam para a maior potência de transformação da minha vida de homem-pai:

1) Estar disponível; e

2) entregar.

Falar de disponibilidade parece ser meio óbvio em se tratando da presença física, mas assim como ela, existe uma outra disponibilidade igualmente importante que é a vontade. Um tipo de abertura interna para as novas mudanças na sua vida.

Querendo ou não, lidamos com isso nos altos e baixos da vida, às vezes como um fardo pesado ou como um convite para o crescimento. Nos dois casos é um desafio de maturidade.

A disponibilidade física é estar junto. Estar presente não só como igualmente responsável pelo filho, mas também na parceria entre o casal, desde o nascimento e ao longo da vida de cuidados e na jornada da educação do filho. A fase inicial de recém-pais é uma fase que demanda muita energia. A mãe e o bebê vão precisar muito da sua ajuda física.

Estar junto nessa fase é fundamentalmente de ordem prática

Cuidar da casa, ficar com o bebê para a mãe descansar, lavar louça, comprar comida, levar água, dar banho no bebê, trocar fralda, organizar roupas, administrar, gerenciar, olhar, cuidar, proteger… Aprender a fazer tudo isso que é, na maioria das vezes, novidade. A forma como fomos criados fez com que essas tarefas se tornassem um peso “extra” nas costas do homem, então, olhe para isso como um convite ao seu desenvolvimento e siga o jogo. Até porque quanto mais a criança cresce, os desafios de ordem prática vão se tornando logísticas super elaboradas de conciliação entre agendas da família.


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Disponibilidade exige coragem

Coragem para reivindicar um tempo justo entre seu trabalho e sua família, desde a licença paternidade e principalmente durante a primeira infância da criança – que é a fase de todo o encanto da descoberta do mundo e também do maior desenvolvimento neurológico do ser humano, de construção dos valores e da aprendizagem pela imitação. Se não estamos presentes, em quem o seu filho vai se inspirar?

Infelizmente o mercado regula como deve ser a nossa relação casa/trabalho. E para quem é pai de recém nascido, os primeiros meses do bebê mexem com os tempos (e com os nervos) do lar. As noites não são necessariamente os períodos de descanso. Se não olhamos para isso com cuidado e carinho, facilmente atropelamos nossos limites de paciência e cansaço desencadeando sérios conflitos entre o casal.

O  homem e a mulher podem se machucar por cobranças e expectativas não cumpridas. A solução em curto prazo é ter diálogo aberto e sincero entre o casal, já que o mercado não vai mudar da noite para o dia e o sistema vai continuar dessa forma por um tempo…

Disponibilidade de ouvir e de falar

Escutar a mãe do seu filho exige um espaço reservado para isso, uma presença especial entre o casal. Não é possível escutar a outra pessoa olhando pro celular, assistindo TV, virado de costas, dirigindo, ou até mesmo resgatando dores antigas não curadas.

Um espaço de escuta significa estar desprovido de armas de defesa e ataque, significa querer. Interessar-se pelo que a outra pessoa tem a dizer, olhar no olho. E quando falar, que também haja o mesmo cuidado de não trazer dores antigas que possam desencadear uma resposta cíclica de ataque e defesa sem fim. Falar o essencial com amor e não com medo.

Da mesma forma, ter a disponibilidade de ouvir o seu filho mais do que falar. Pensando em crianças pequenas, no meu caso com filho de 3 anos, a comunicação dele está a pleno vapor. Mas ele se comunica com o corpo também porque ainda faltam palavras e vocabulário. Ele chora, vira a cara, abraça, sorri, sai correndo… se esconde. Muitas vezes eu sinto que durante uma resolução de conflitos, por exemplo, é muito mais eficiente e empático, um simples agachar na altura dos olhos dele seguido por frases como: “Eu te entendo”“Eu estou aqui com vocꔓEu te escuto pedindo um abraço…” Do que necessariamente querer explicar racionalmente a situação. Talvez seja ótimo explicar, em um momento seguinte, mas não na hora das explosões ou dos conflitos.

É muito triste perceber que não temos paciência e não estamos mais disponíveis para conversar.

Disponibilidade para olhar para si

Nascimento e morte são momentos intensos na vida de qualquer ser humano. Vão sempre te trazer questionamentos, reflexões, dúvidas, medos, e principalmente vão te convidar a algum tipo de mudança. Especialmente se estivermos falando desses acontecimentos relacionados diretamente a você.

A vinda do primeiro filho é um marco importante na sua história porque haverá uma transição bem nítida entre você-independente e o você-família. É uma mudança significativa na nossa vida e haverá muitas dúvidas e questionamentos desse “novo” modo de vida daqui pra frente.

Investigue o que é esse novo pra você e compartilhe com a sua companheira, divida suas angústias, experiências e aprendizados. Busque também um espaço de cumplicidade com outros homens. Um círculo de homens que se apoiam nos processos de autoconhecimento se tornam mais fortes em suas buscas e consequentemente em suas realizações pessoais. Homens fortalecidos emocionalmente revelam um aspecto luminoso da potência do masculino criativo, cuidador, respeitoso, empreendedor e saudável. Uma força certamente necessária para a família e para a sociedade.

Disponibilidade para amar seu filho

Cultivar o amor no dia a dia. Amar um bebê é não querer nada em troca, até porque a única coisa que você vai receber dele é choro, berros, cocô, vômitos… às vezes uma risadinha que é na verdade um espasmo muscular. Parece óbvio, mas não é.

Amar sem querer nada em troca é um processo muito elaborado da transição você-família.

Os primeiros meses são puramente de serviço para a mãe e o bebê, além disso segurar uma onda forte de hormônios do puerpério. Uma verdadeira enxurrada de mudanças. Crie o hábito de amá-los durante o servir. Esteja aberto ao encantamento das pequenas coisas, vislumbre o crescimento do seu filho a cada segundo. Cultive sua relação.

E esteja atento para perceber que o seu amor faz seu filho crescer confiante dele mesmo e que a autonomia dele está diretamente ligada a essa relação entre pai e filho. Amar é deixar ir.

Entregar é aceitar as mudanças

E, por fim, a entrega. Não no sentido permissivo de que tudo está bem, mas no sentido corajoso de ser. Que por mais doloroso e difícil que seja essa jornada de autoconhecimento através da paternidade, eu me permito olhar e farei de tudo para que aprenda com as transformações, mesmo que precise de ajuda. Essa entrega também tem a ver com improvisar. Nada é, para uma criança, tão óbvio quanto você imagina. Calçar um sapato pode levar horas, escovar os dentes pode ser motivo de longas discussões, ir ao parque pode ser a maior aventura da vida dele. Amplie a sua flexibilidade com as coisas e tenha a capacidade de mudar o roteiro e fazer tudo diferente se algo não sair como o planejado.

Posso dizer até agora que minha experiência de recém-paternidade é, sem dúvida, um dos momentos da minha vida de maior crescimento pessoal porque me provoca diariamente a sair da zona de conforto. É um convite diário a ser uma pessoa melhor. Coloca um espelho na minha frente chamado filho e nele consigo me ver nitidamente quando estou alinhado no amor ou desajustado no medo.

Somos pais, mas seguimos crescendo e aprendendo, assim como nossos filhos.

*Autor: Victor Farat é pai do Ivo. Ilustrador e facilitador gráfico, entre seus mundos de pai, marido, dono-de-casa, empreendedor, se dedica também na condução de grupos e rodas de pais. Descobriu na paternidade um novo sentido de olhar para si mesmo e para o mundo.

Esse texto foi publicado originalmente no site Papo de Homemhttp://bit.ly/2zi4mx8

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