Você, pai, “ajuda” nos cuidados com a criança? Então está errado!

Espero, sinceramente, que a resposta seja um sonoro: “Não”! E que você, que é mãe, responda isso com muita certeza e orgulho do que diz, no caso do seu filho ter um pai que participa de verdade da criação, da atenção, dos cuidados, dos abraços, do dia a dia com a criança. Estamos em 2018 e não há mais espaço para comemorar cada fralda trocada pelo pai. É simples: #PaiNãoAjuda #PaiParticipa. É o melhor que ele pode fazer para o desenvolvimento da criança, pelo casal e por ele mesmo.

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A importância do afeto e carinho na primeira infância

Pesquisas das áreas da neurociência e da psicologia comprovaram que a primeira infância, período que vai do nascimento aos seis anos de idade, é crítico para o desenvolvimento cerebral da criança e para a aquisição de habilidades que lhe servirão para a vida toda. A capacidade de aprendizado, as primeiras interações sociais com a família e, depois, na escola, os movimentos corporais com a coordenação motora testada e treinada a todo instante, tudo acontece intensamente nesses primeiros 72 meses de vida.  E o ponto fundamental: o afeto e o carinho são o motor para que esse desenvolvimento aconteça na sua plenitude.

As mães sempre foram protagonistas dessa história – e por motivos óbvios. São elas que carregam o bebê no ventre, enjoam, sentem as dores do parto, amamentam, estão naturalmente mais próximas do filho. A mãe cuidadora, que sustenta o bebê com seu leite e seu colo, representada nas artes, desde os tempos mais remotos, na publicidade e no cinema, criaram a imagem de uma mulher – agora mãe – que não precisa da presença do pai para sua tarefa primordial, a maternidade. Cabia ao pai a função de prover, de proteger a família, estabelecer as regras, dar os limites.

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Efeitos da cultura machista

A progressiva mudança do papel da mulher na sociedade, com sua entrada no mercado de trabalho, especialmente a partir da década de 1970, foi aos poucos modificando o lugar do homem na família. O cinema americano, as novelas brasileiras e a publicidade foram dando sinais dessa mudança. Aos poucos, os homens apareciam como habilidosos cozinheiros, interessados em decoração ou mais explicitamente vaidosos do que em qualquer outra época. Seguindo o mesmo caminho, pais levando crianças para a escola, trocando a roupa do filho ou falando sobre as alegrias e dificuldades da paternidade formaram uma cena mais comum. No entanto, o lugar desse pai, o seu papel – que não é (ou não deveria ser) o do colaborador, do ajudante ou, mais passivamente, do espectador – ainda tem vários desafios para se estabelecer.

Um trabalho produzido em 2016 pela organização não governamental Promundo-Brasil, intitulado A Situação da Paternidade no Brasil, contextualiza esse lugar do pai na família. Este trecho apresenta a situação: “Interessante notar que o debate público a respeito da paternidade foi inicialmente centrado na ‘não paternidade’, ou seja, na ausência dos pais, um fenômeno que possui raízes profundas em nossa história, muito marcada pelo patriarcado, pelo machismo e pela divisão sexual do trabalho. Nessa conjuntura, a máxima ‘o filho é da mulher’ permanece presente não apenas no discurso popular, como também no de diversas instituições de nosso país”.


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Desmistificando hábitos e conceitos

Fato é que, a despeito do que está escrito em nossos marcos legais, a cobrança pelo cuidado das crianças ainda recai prioritariamente sobre as mulheres, como se isso fosse um destino “natural”. Já para os homens, persiste certa tolerância relacionada à não participação, ao abandono ou ao não reconhecimento das filhas e filhos, o que pode ser ilustrado pela estimativa de mais de cinco milhões de estudantes brasileiros(as) que permanecem sem o nome do pai na certidão de nascimento e no documento de identidade.

Se a mudança cultural caminha, como sempre, a passos curtos, uma conquista legal, em 2016, representou um grande salto. O Marco Legal da Primeira Infância, Lei Federal nº 13.257, foi aprovado por unanimidade no Senado. Ele coloca a criança, do nascimento aos seis anos de idade, como prioridade no desenvolvimento de programas, na formação dos profissionais e na formulação de políticas públicas. Um dos destaques da lei é a ampliação da licença-paternidade de cinco para 20 dias no caso de funcionários de empresas que fazem parte da Empresa Cidadã, um programa federal. E essa prorrogação da licença-paternidade vale também para funcionários que adotarem crianças. O objetivo é que o pai possa passar mais tempo com a criança nesse momento fundamental do desenvolvimento, fique próximo do bebê e da mãe, inicie a criação de um vínculo para a vida toda.

As pesquisas sobre desenvolvimento físico, emocional, cognitivo e social da criança, especialmente do nascimento aos seis anos, se apresentam de maneira cada vez mais contundentes, propondo que a sociedade e as políticas públicas atentem para os desdobramentos que os cuidados e estímulos adequados podem ter na vida das crianças, da família e da sociedade. Nesse contexto, o pai, e não apenas a mãe, passa a ser sujeito dos cuidados com o filho e corresponsável pelo seu desenvolvimento e bem-estar físico e emocional. Essas discussões colaboram para que a integração do pai nas tarefas e no prazer da convivência e da intimidade com as crianças seja reforçada. Ganham todos: as crianças, com os diferentes estímulos proporcionados por essa convivência; as mães, que ficam menos sobrecarregadas; e os pais, que também passam ser protagonistas da história.

E, na sua casa, como isso funciona? Conte sua história nas redes sociais colocando as hashtags #PaiNãoAjuda #PaiParticipa.

*Autora: Paula Perim, mãe da Júlia, 20 anos, e da Beatriz, 19 anos, é coordenadora de comunicação da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, organização que promove o fortalecimento da causa da primeira infância no Brasil (www.fmcsv.org.br), além de autora do livro 101 Ideias para Curtir com Seu Filho – Antes de Ele Completar 10 Anos (Ed. Globo).

*FONTE: SESC SP. Link original: https://bit.ly/2FALprD

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