Educação, Ludicidade e Cultura Popular para nossas crianças

O pedagogo, escritor, filósofo e psicanalista Rubem Alves em suas brilhantes colocações escreveu poeticamente sobre as “utilidades” e “inutilidades” da vida, colocando tudo o que é útil em uma caixa de ferramenta e tudo o que é inútil em uma caixa de brinquedo.

Partindo desta ideia, a arte popular, a música, o teatro e a brincadeira estão longe de serem “úteis”; não são, à primeira vista, ferramentas que tornam o corpo físico mais poderoso, mas dão prazer e alegria. Permitem que desejos íntimos sejam expressos de maneira criativa valorizando o “ser” em detrimento do “ter”.

Para nossa sociedade atual, possuir ferramentas, ter dinheiro e poder de compra tornam as pessoas mais poderosas e esta sensação de poder se confunde com sentimentos como felicidade e amor. Objetos são ferramentas e não podem se expressar, precisam do ser para sofrerem transformações. Quando uma criança brinca espontaneamente ela se conecta com ela mesma, pois descobre o seu tesouro interior, sua criatividade, que aflora através de um desejo de criar e conhecer. Esse desejo espontâneo e a liberdade são a essência da ludicidade.

A importância do brincar para estimular a criatividade

É muito comum encontrar propostas lúdicas em sala de aula onde os alunos aprendem conteúdos pedagógicos específicos através de brincadeiras dirigidas.  Trazer o brincar para a escola é muito bom, no entanto, quando ela visa encontrar apenas uma resposta “certa”, experiências são silenciadas e perde-se a oportunidade de que apareçam novos olhares e novas possibilidades.

Quando somos bombardeados por estímulos massificados, com respostas múltipla escolha, precisamos escolher respostas prontas. Quando recebemos um brinquedo pronto, por exemplo, nos resta descobrir como ele funciona, e se for um brinquedo que exige pouco do nosso envolvimento e pouco nos desafia, iremos observá-lo brincar sozinho.

Nas visitas teatralizadas do Museu do Pontal, já recebemos crianças que inicialmente adotam comportamentos padronizados, do tipo responder nossas provocações em coro: “Sim. Não!” Às vezes os arte-educadores precisam fazer a mesma pergunta várias vezes até alguma criança ouvi-la de verdade e dar uma pequena risada. Neste momento elas começam a perceber que podem ouvir, pensar, criar, errar.

Não somos máquinas

detox-digitalNão somos máquinas e não precisamos ser úteis a todo momento e nem sermos o que os outros esperam que nós sejamos. Como estamos rodeados de estímulos que preenchem nossos cinco sentidos, principalmente nossos ouvidos e olhos através da televisão e internet, é preciso silenciar, permitir que algo nasça de dentro, ouvir o que vem do interior e também dar ouvidos ao que surge do interior de outros.

Para ouvir o próprio desejo e o do outro é preciso atenção, presença, plenitude.

Lembro-me de um professor que dizia que para surfar é preciso estar presente, atento a tudo que está acontecendo ao redor, sem distrações, sem se desconectar com aquele momento. É preciso estar envolvido como se você fosse o mar.

Com a brincadeira funciona assim. Ela faz parte do universo infantil de maneira tão intensa que mesmo quando a brincadeira não é estabelecida, as crianças estão criando e imaginando.  É quase impossível pensar em criança e não pensar em brincadeiras. O brinquedo para os pequenos, seja ele um brinquedo cantado, um brinquedo físico, uma folha, uma terra ou tantos outros motivos que viram brinquedos e brincadeiras é uma forma de expressão da imaginação, da intuição, dos sentimentos e do corpo físico. A criança se conecta com ela integralmente nas brincadeiras.

A cultura Popular e o a linguagem teatral

Na cultura popular as pessoas que participam das festas populares são chamadas de brincantes. Cada um com seu figurino cria personagens e permite que sua criatividade venha à tona rompendo limitações e barreiras sociais. A proposta adotada nas visitas teatralizadas do Museu do Pontal parte da ludicidade e busca respeitar o desejo das crianças e a espontaneidade de suas perguntas e respostas.

  • Para conseguir ouvir o desejo do outro é preciso ouvir o outro. Dar tempo para o outro falar e se expressar. O arte-educador funciona como um mediador, um organizador de ideias. Ele faz perguntas e mais e mais perguntas em cima de respostas dadas pelos alunos. Não existe uma única reposta, existem várias indagações que surgem das experiências que cada indivíduo teve na sua vivência social desde o nascimento. As respostas vão sendo gradativamente construídas através de estímulos variados onde não existe certo ou errado, mas sim possibilidades de construção do saber.

Nas visitas musicadas a música auxilia a mediação entre o público e as obras de arte. Com violão, cavaquinho, pífano, berimbau, caxixi, ganzá, alfaia, pandeiro, tarol, tamborim, agogô e triângulo, os arte-educadores tocam ritmos característicos de manifestações culturais brasileiras como o samba, o jongo, o coco de roda, a ciranda, a capoeira, o forró, o baião, o maculelê, a puxada de rede, a catira e o maracatu e cantam versos que contam a história dos escultores populares, suas regiões de origem, seu cotidiano, suas ideias, a matéria prima que usam em suas esculturas e as cenas que descrevem.


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Também através da linguagem teatral os arte-educadores possibilitam uma imersão no universo da cultura popular, que não é apenas concreta e visual, ela é sentida e vivida através da participação de cada brincante. Nas visitas teatralizadas, os arte-educadores oferecem aos alunos a possibilidade de manipularem mamulengos e os incentivam a criar suas próprias histórias. Além disto, promovem uma grande festa do Bumba meu Boi convidando os alunos a se vestirem com figurinos e participarem de mais uma versão desta festa, com seus muitos personagens.

Todas estas expressões artísticas, o repente, a contação de histórias, os desafios, a música e o teatro possibilitam a vivência, a interação do grupo com o acervo trazendo alegria e sentido ao que estão fazendo. Desta maneira o público se identifica com as obras e compreende este universo.

A identificação com os temas é algo constante dentro do museu. A música traz lembranças da infância, da canção de ninar cantada pela mãe, das relações de afeto, das brincadeiras, dos trabalhos familiares e festas populares. Cada região do Brasil possui singularidades culturais. É visível a identificação de adultos e crianças com sua região de origem e com a terra natal de seus familiares. As pessoas se reconhecem nas obras de arte, se reencontram e se emocionam.

Esta noção de brasilidade, de pertencimento, de conexão com as próprias raízes culturais dá sentido à existência e

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certamente está guardada na caixa de brinquedo descrita por Rubem Alves.

O Brasil possui uma riqueza cultural gigantesca, comum aos olhos nativos desta terra. E por fazer parte do cotidiano, muitas vezes o próprio brasileiro não enxerga a grande riqueza da arte popular, vista diariamente em sua volta.

Curiosamente, a história do Museu Casa do Pontal surge através do olhar de um estrangeiro sedento de beleza, após passar dois anos sombrios em um campo de trabalhos forçados na Alemanha durante a II Guerra Mundial, onde lutava pela liberdade de todos.

 

 

 

Jacques Van de Beuque era seu nome. Um francês, jovem artista, que chegou ao Brasil no ano de 1946 e faleceu em 2000.

 “Chegou aqui um francês

Andou o Brasil inteiro

Passou por todo o Nordeste

E pelo sertão mineiro

Para poder conhecer

Nossa arte popular

E o artista brasileiro

 

Virou colecionador

Da arte desse povão

Conheceu muitos artistas

Fez amigos de montão

Lutou por um sonho seu

De construir um museu

Pra mostrar sua coleção”

(“Repente do Jacques” de autoria da arte educadora Juliana Prado – 2001)

 

O Museu do Pontal foi construído por ele em 1976.  Em 1989 o acervo foi tombado como uma referência cultural da cidade do Rio de Janeiro e em 1992 foi aberto ao grande público. Museus são estruturas que estão permanentemente em mudanças e vivem de transformações. Hoje, nele participam muitos profissionais apaixonados.

O museu fica em um sítio no bairro do Pontal no Rio de Janeiro, próximo à famosa praia da Prainha. Reúne mais de oito mil obras de cerca de 300 artistas de mais de 20 estados brasileiros. É considerado o maior museu de arte popular do país, completando no ano de 2016 40 anos de atividades.

*Autora: Cecilia Einsfeld é coordenadora do programa educacional e social do Museu Casa do Pontal, professora de música, cantora, instrumentista e compositora. Contato:educativo@museucasadopontal.com.br / www.museucasadopontal.com.br . 

Referências bibliográficas:

ALVES Rubem. Educação dos Sentidos e mais. Campinas, SP: Verus Editora, 2005.

MASCELANI M. Angela. O mundo da arte popular brasileira. 3ª ed., Rio de Janeiro: Mauad, 2009.

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