Quem conhece a 4daddy sabe que acreditamos que o exercício de uma paternidade cuidadora, afetiva e participativa é um dos caminhos mais acessíveis para a redução da desigualdade de gênero, quebra de estereótipos machistas e melhora das relações familiares.

“Me diga com quem andas, que te direi quem és!!!”

Ditado Popular

O Ditato popular acima nunca fez tanto sentido para homens e pais nesses últimos anos. As mulheres, por necessidade, aprenderam a se organizarem em grupos e redes de apoio. Nós, homens, principalmente brancos, hétero, cis e de classes médias e altas, devido ao privilégio de estarmos sempre em lugares de poder, e imersos num machismo castrador, nunca nos demos a possibilidade de nos organizarmos para construirmos lugares de seguros e redes de apoio para conversarmos de forma mais aprofundada sobre nossa masculinidade, paternidade, sexualidade, vulnerabilidades, preconceitos e etc.

“A Paternagem, no início uma trajetória solitária para encontrar reconhecimento, no presencial ou virtual, homens procuram através da relação com outros homens, se identificarem, se delimitarem, se reconhecerem.”

No últimos anos, um crescente número de grupos de homens (presenciais e/ou virtuais) organizados sobre a temática “Paternidades” surgem. Esses grupos “paternos” passam a ser principal canal de troca de experiências e um lugar de acolhimento de suas angústicas e inseguranças. Esta realidade já era vivenciada antes da Pandemia do Covid-19, por pais que desejavam expressar suas experiências paternas, mas é no meio do Isolamento Social que essas interações virtuais geram maior ressonância e auto identificação. Essa troca com outros pais legitima comportamentos e traz a sensação de pertencimento.

Para eles, esse “lugar seguro” mediado por tecnologias, passa a ser tão real quanto o mundo não digital, e por vezes exercendo maior influência. Por poderem se vulnerabilizar sobre seus desafios, medos e angústias, e também um lugar de troca de experiência riquíssima, onde tem contato com outras realidades de Paternidades e Paternagens, que traz reflexão e amadurecimento merecido ao tema.

Esses grupos, se mais localizados e regionalizados, também possuem um papel muito importante de rede de apoio. Onde pais trocam mais do que dicas, experiências e sugestões, também trocam ajudas e apoio operacional mesmo, como: “Alguem pode buscar o Nathan na escola pois apareceu um imprevisto no trabalho?” ou “Eu e minha esposa, estamos tranquilos com a Sofia nesse fds, alguem precisando de ajuda e querendo uma mão com as crias?”

Construção de afeto entre homens

A falta de referências positivas paternas e masculinas exercendo esse papel de Afeto e cuidado é um dos principais obstáculos para a construção de uma masculinidade mais saudável.

Esses grupos viram as principais referências. E fortalecem uma construção de troca e afeto, inédito, entre homens, numa sociedade construida sob uma cultura machista.

A criação de grupos como esses, sejam sobre Paternidades, ou que trate sobre Masculinidades como um todo, podendo ter acesso homens não pai. Grupos que possam ter objetivos e missões diferentes, acolher a diversidade e serem inclusivos, é o caminho mais sólido para a construção de uma sociedade mais igualitária, justa e economicamente sustentável.

Numa sociedade onde o homem faz parte do problema. Ele também faz parte da solução!

Bom, agora vamos para a prática.



Como criar e gerir um grupo virtual de pais, sem perder a mão, ou virar bagunça?

A 4daddy participa de vários grupos virtuais sobre Paternidades, sejam eles no Whatsapp, Telegram ou mesmo no Facebook. Grupos variados, com pais das 5 regiões do Brasil, grupos com recortes raciais diferentes, uns mais diversos e inclusivos que outros, em processos diferentes de amadurecimento sobre o tema, mas todos legítimos, e buscando aprofundar de forma genuína a paternidade e a paternagem.

Vamos ao passo a passo:

1. Qual é o REAL motivo para mais um grupo?

Ninguém aguenta mais grupos virtuais, então para que criar mais um se for para ter as mesmas conversas e papo furado?!

Você está realmente disposto a cultivar um espaço de escuta, oferecimento e aprendizado, que o desloque para fora de sua zona de conforto, que seja sustentável e ajude os participantes a florescer e nutrir melhores relações em todos os sentidos?

Criar uma criança não é fácil, é empreender uma VIDA. E paternar em grupo e em rede torna esse exercício menos solitário e mais rico.

Então definir o real motivo e objetivo do grupo é muito importante. Até para atrair pessoas que estejam dispostas. Esse grupo não é para educar ou ensinar ninguém a ser pai, ou uma competição de quem é o Paizão da semana, e muito menos para julgar paternidades alheias. O grupo é para ser um espaço de troca!

2. Construindo um acordo de convivência, isto é, as regras básicas

É fácil o negócio descambar. Virar uma metralhadora de memes, piadinhas equivocadas, julgamentos virtuais e etc.

Para isso não acontecer criar uma regra básica e um “manifesto” onde lá diz qual é o objetivo do grupo ajuda e muito.

Lógico que essas regras podem ser sempre revistas e mudadas, combinados podem ser recombinados, e inclusive o “manifesto” com o motivo e objetivo do grupo ser atualizado e ampliado.

Na verdade é muito bacana conforme o grupo for crescendo, sempre haver esse período de reflexão e auto crítica do grupo como um todo. Para ver se o motivo do grupo ainda faz sentido e se o objetivo está sendo atendido.

2. Lugar Seguro

Não confunda com lugar seguro com “passar pano pros mano”, e acolhedor é você se vitimizar sobre a vida. Lugar seguro é que você poderá ser transparente, ou o grupo será transparente com você. Todos saibam as regras do jogo, o que pode e o que não pode. Onde não a intenção de “passar pano” mas também não há a intenção de julgamentos levianos e de prejudicar ninguém.

3. Lugar acolhedor

Lugar acolhedor é um lugar de escuta. Onde todos os temas possam ser debatidos da forma mais livre possível de pré-conceitos e julgamentos moralistas. Sei o quanto isso é difícil. É uma exercídio diário, e sempre importante reafirmar periódicamente no grupo.

E acolhedor não quer dizer sem desconforto. Pois falar de Paternidades sem problematizarmos ou falarmos de forma séria e franca, é recreação. E não tem finalidade alguma criar mais um grupo para ficar distribuindo “biscoito” entre pais.

O “pai” da Comunicaçao Nao Violenta (CNV), Marshall, diz que a pessoas tem um conceito errado sobre a CNV. CNV não é ser dócil ou passivo. Há conflitos na CNV. Ele defende que tudo que é importante e “vale a pena” para nós, devemos enfrentar e gerar conflito. O que a CNV nos ensina, é que a solução para esse problema ou desafio não precisa ser a VIOLÊNCIA.

Um ingrediente que está em toda a educação dos homens. Aprendemos desde criança a solucionar nossos problemas com violência, seja ela física de fato, ou verbal, psicológica, financeira e etc.

Um grupo de pais virtuais podem ser tratados esses temas. Além dos desafios do dia a dia que é empreender uma VIDA, que é criar uma criança. Um dos primeiros obstáculos é a criação de uma linguagem compartilhada. Um terreno comum, algo que se não puder garantir, ao menos reduza desentendimentos e atritos.

Precisamos lembrar que cada pai é um sujeito diferente que que traz consigo suas crenças, desejos, frustações e referências. E que cada um está num estágio emocional, intelectual e de maturidade diferente sobre o tema. Não é porque ela se interessou pelo grupo que ela automaticamente entra na mesma frequência. Portanto, é essencial que haja clareza na forma como se comunica ali dentro.

4. Comunicação transparente e Linguagem compartilhada

Em conversas é muito fácil ser mau interpretado e interpretar mau as pessoas. Num grupo então com vários homens e pais então, pra coisa descambar é super fácil.

Por isso é importante todo mundo no grupo fazer o exercício de não poluir com mensagens que não fazem sentido, ou trazer temas que não são pertinentes ao grupo e etc. Essas descisões e julgamentos terão que ser em conjunto e de forma democrática conforme as regras já estabelecidas que podem ser sempre mudadas.

Nós da 4daddy vamos deixar uma listinhas de coisas que é importante para sempre fortalecer o grupo e praticar uma comunicação assertiva com uma linguagem inclusiva e compartilhada, veja abaixo:

4.1. Leia, releia, depois leia mais uma vez. Quando achar que já entendeu o que o seu amigo escreveu, releia de novo. Interpretar não é uma habilidade natural. E não é uma competição de quem sabe mais, ou quem responde mais rápido. Então leia, entenda o que o colega quis dizer, e se ficar na dúvida, peça para ele explicar ou detalhar mais, dando exemplos, que facilita muito.

4.2. Veja o outro no mundo dele. Evite julgamentos apressados, frases clichês, lugares comuns e oferecer soluções rápidas segundo suas crenças pessoais. Às vezes, o que funciona pra você não vai funcionar pra ele. E não seja o “sabidão”!!!

4.3. Tente entender além das palavras: o que aquela pessoa está sentindo? Raiva? Medo? Ciúme? Como ela escreve? Está apressada? Está chorando? Está sorrindo nervosa? Disfarça a sua própria dor? Pratique a empatia e a compaixão meu querido com os outros, para que pratiquem com você também.

4.4. Pense antes de escrever e enviar a mensagem. O que você vai enviar no grupo é pertinente? Faz sentido? Está no momento certo? Vc está sabendo se expressar direito? Vai te ajudar em algo? Vai ajudar alguem? Responda essas perguntinhas simples antes de enviar. Evite um vexame que é uma maravilha!!! rs

4.5. Ao expressar o que pensa, tente ser menos violento. Muitos conselhos que tentamos oferecer não passam de agressões veladas e pioram o problema. Pode ser bom investigar um pouco sobre CNV, como já falei aqui, a fim de evitar soltar essas farpas sem querer.

5. “Encontrinho” presencial

Não recomendo que o grupo exista apenas na possibilidade de todos se conhecerem presencialmente (sei que é difícil), mas é bom que esse contato exista em alguma medida, pois isso cria um respeito, uma certa reverência a quem está lá e ao próprio espaço de diálogo. Gera afeto!

6. Última dica mas não o menos importante: escolha a melhor plataforma

Hoje o que não falta são plataformas: Whatsapp, Telegram, Grupo no FB e mais todas as outras que ainda surgirão.

Grupo no FB pode parecer antiquado em 2020, mas talvez seja o mais democrático. O Whatsapp é o mais popular e o Telegram é o que está na onde pelas ferramentas inovadoras que oferece.

O mais importante ao escolher não é qual a que está mais na “moda”, mas qual é a que faz mais sentido para o grupo e que seja acessível a todos.

Para terminar…

A nossa intenção com essa matéria não é estancar o assunto. Com certeza esqueci de algo, poderia detalhar mais sobre alguma coisa explicar melhor outra. Mas isso faria essa matéria virar um LIVRO, e não é a nossa intenção nesse momento.

A 4daddy tem acredito muito no poder do coletivo na transformação dos homens. Por isso ano após anos pesquisamos, estudamos e implementamos formas e metódos de construir grupos de reflexão e rede de apoio para HOMENS e PAIS.

Nossa intenção é sempre atualizar essa matéria com novas dicas, ideias e sugestões. Lançaremos também aqui em formato de EBOOK Guias e Cartilhas para apoiar a criação de grupos de homens/pais virtuais/presenciais que saiam do ambiente familiar e que expanda para outros ambientes como empresas, Poder Público, escolas, Universidades, Organizações sociais, com motivações e objetivos variados.

Fiquem de olho!!!

*Autor: Leandro Ziotto, pai afetivo do Vini e fundador da 4daddy.

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