Agressividade na infância

O tema “AGRESSIVIDADE“, quando engloba a faixa etária da primeira infância (0 a 3 anos), desperta nos adultos inúmeros sentimentos, por envolver muitas conquistas e uma série de desafios. A criança está sendo apresentada ao mundo e cabe aos pais/educador/cuidador, introduzi-la na vida em grupo e guiá-la na forma de se relacionar e se comunicar com seus pares. Por outro lado, seus pais, repletos de expectativas, buscam acertar na orientação aos filhos nesta etapa.

 

A criança traz consigo características que amadurecem a partir de seu desenvolvimento natural e da interferência com o meio social. Este amadurecimento irá permitir que seu potencial para relacionar-se com outras crianças da mesma faixa etária se amplie, estimulado por estar num ambiente coletivo. Oferecer um ambiente favorável ao desenvolvimento infantil é responsabilidade da instituição e da família e para a realização desta tarefa se faz necessário o conhecimento das características desta fase, assim como um repertório variado de atividades que a atenda.

Donald Woods Winnicott (1896/1971) é um pediatra e psicanalista inglês. Segundo Winnicott, cada ser humano traz um potencial inato para amadurecer, para se integrar; porém, o fato de essa tendência ser inata não garante que ela realmente vá ocorrer. Isso dependerá de um ambiente facilitador que forneça cuidados suficientemente bons, sendo que, no início, esse ambiente é representado pela mãe/cuidador.

 

Um de seus principais conceitos é que: “Amor e ódio constituem os dois principais elementos a partir dos quais se constroem as relações humanas.” Amor e ódio são sentimentos naturais e normais em bebês e crianças pequenas, assim como nos adultos. O importante é saber lidar com eles e não negá-los. Mas amor e ódio envolvem agressividade, mas uma agressividade que nos impulsiona a crescer!

 

Ao derrubar uma torre, rasgar papéis, espirrar água durante o banho, a criança tem a oportunidade de expressar sua força e impulso agressivo. Essas manifestações por serem aceitas socialmente não trazem maiores consequências e permitem a criança expressar de forma organizada conteúdos de suas fantasias agressivas.

 

As primeiras manifestações de “agressividade” através de mordidas da criança geram no adulto uma ansiedade muito grande, talvez porque os adultos associem a agressividade com a violência.

 

A mordida é igualmente uma forma de comunicação com o mundo.

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Tudo no bebê passa pela boca: aceitar ou rejeitar alimentos, chorar, sorrir e também demonstrar sua força. Para o bebê morder muitas vezes é se comunicar. Bebês desconhecem a força que podem colocar na boca e os efeitos das mordidas.

Eles já lutam por suas coisas, um brinquedo, utilizando os recursos que tem.

A proposta é que os pais e educadores associem agressividade com combatividade, que significa a luta pelos seus objetivos.

A combatividade é uma canalização positiva da agressividade, para se conseguir o que quer.

 

O bebê descobre, quando surgem os dentes, a diferença entre o duro e o mole e muitas vezes se surpreende com a reação da criança a quem mordeu, podendo até se assustar e chora com o choro que ele provocou.

Crianças de um ano e meio já lutam pelas suas coisas, o que indica que elas estão se desenvolvendo bem. Quando dois bebês querem o mesmo brinquedo, lutarão por ele, usando cada um suas forças para conseguir o que desejam.

 

AGRESSIVIDADE x COMBATIVIDADE

 

Educadores e pais podem diferenciar agressividade de combatividade. A liberdade de disputar as coisas, mesmo com o risco de mordidas, é fundamental para a criança aprender a lutar por seus pequenos objetivos. A vivência de uma frustração ou raiva pode desencadear reações controláveis ou incontroláveis, dependendo do nível interno de tensões existentes na fantasia inconsciente.
O adulto tem o papel primordial de impedir que a manifestação agressiva fuja ao controle, garantindo, entretanto, que ela possa ser expressa sem causar danos à própria criança e ao seu ambiente. Ao aceitarmos as manifestações de agressividade e pudermos dar sentido a este comportamento, devolvendo para a criança a possibilidade de reparação e restituição do controle, estaremos contribuindo para a constituição de um ser produtivo e consciente.

 

Impacto das mordidas 
Ao se deparar com situações de mordidas, principalmente se for recorrentes, os adultos podem se sentir expostos e impotentes. Confortar as crianças, cuidar das lesões e dos sentimentos, todos esses aspectos envolvem cobranças pessoais e orientações.

 

Como enfrentar estas situações?

 

Em primeiro lugar aceitar as mordidas como uma manifestação natural e um comportamento esperado em crianças quando da aparição dos dentes até a faixa aproximada dos 2anos.

Arranhões, empurrões, tapas tem a mesma orientação.

 

*Autora: Silvia Gomara Daffre, psicóloga, formada pela PUCSP em 1974; atua em consultório, atendendo crianças, adolescentes e adultos. Trabalha com assessoria e consultoria para a Primeira Infância (0 a 6 anos). silvia@silviamaterne.com.br / Tel.(11) 55752359

 

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