A maternidade na era da ansiedade e o papel do Pai

Cheguei às 8 da manha na casa de um pessoal em certa região meio deteriorada do interior paulista, para uma entrevista que eu devia fazer a essa família, perguntando alguns hábitos de consumo, para uma multinacional gigante que vende sabão e sopa. Só mais um dia normal na vida de um psicólogo freela que precisa pagar as contas.

Logo de cara me chamou a atenção a configuração matinal. Uma mãe, despenteada e em pijama ainda, com três filhos tocando o puteiro, mesmo. O menorzinho, uns 4 anos, estava tirando umas uvas passas do cereal dele e arremessando com força, enquanto ria (totalmente entendível, sendo uva passa). Os dois mais velhos, de 6 e 7, chuto eu, estavam em um quebra pau absurdo, por uma revista de palavras cruzadas (????). a mãe me olhou, olhei pra ela com empatia e solidariedade talvez, e me pediu desculpas. O marido já tinha saído faz tempo para o trabalho, como todas as manhãs (a sorte é de quem trabalha fora… não é?) e ela me disse que as crianças tinham acordado cedo e que ela foi dormir tarde.

Basicamente ela vai dormir tarde porque está estudando pra passar em um concurso. Pra isso precisa, resumidamente, gabaritar uma prova que não se sabe quando vai ser e para a qual tem mais ou menos 300 pessoas por vaga. Estuda todos os dias das 10 da noite às 2 ou 3 da manhã. Tentando decorar fórmulas cíveis e de direito processual enquanto alterna com o único momento de paz para ver aquele vídeo de gatinhos no facebook, comentar nas fotos felizes das amigas de escola e rejeitar dois convites para um forró e para um aniversário no dia seguinte.

Aos trinta e poucos anos, sua vida social é nula. Sua vida sexual também.

Ela me disse que ontem a noite um dos meninos não conseguia dormir, acordou varias vezes e ainda o outro mijou na cama. As 4 da manha estavam trocando lençóis e dando banho numa pessoa. (ela estava, o marido não pode se encarregar disso, pois precisa trabalhar no dia seguinte). Dava pra ver a exaustão, o cansaço infernal e o sentimento de que a vida é, por dizer poeticamente, uma grande bosta.

Tinha um pouco de tempo antes de fazer a tal da entrevista com ela. Perguntei se tinha café pra passar e sentamos pra tomar uma xícara. Ajudei a controlar um dos pequenos, que continuava arremessando comida. Consegui distrai-lo e engaja-lo em uma atividade e ficou de boas. Os outros dois levaram um belo de um berro e ficaram quietos.

Claro que não consegui falar com ela sobre nada. Não ia simplesmente falar pra ela que o marido devia se engajar mais nem nada. Só quis ser receptivo, que ela sentisse que é pessoa. Que alguém olha pra ela e não vê um objeto. Fiz a entrevista e fui embora, com aquela sensação de querer abraçar o mundo e não conseguir.

Encontro mães nessa situação o tempo inteiro. Mulheres jovens, até pouco tempo atrás livres, independentes, com uma carreira promissora despontando ou até bem desenvolvida. Outras mulheres que estavam estudando, que tinham um plano de vida, de uma sequência de eventos que as levaria até o ponto onde queriam estar, onde sonhavam até o momento “só que fiquei grávida”.  Algumas delas se juntaram com o homem que as glorificava, pelo qual seriam capazes de abrir mão de tudo nesta terra, um amor tão grande que precisava ser reproduzido, procriado. Outras simplesmente engravidaram sem pensar muito nisso, sem grandes planos familiares. Seja como for, e realmente tanto faz… Por que eu vejo tantas mulheres anuladas através de uma das circunstâncias que supostamente deveria ser das mais felizes da existência humana como gerar, parir e nutrir um bebê?


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O que está acontecendo com as nossas mulheres que não conseguem ser felizes sendo mães?

Entrevistei muitas mulheres para esse projeto. A maioria delas recrutada com minúcia pela agência de logística e o perfil era semelhante. Mulheres jovens, exauridas, despenteadas, anuladas e com a sensação de que não era bem isso que estavam planejando quando sonharam em ter um bebê.

Sem que o cliente soubesse, lógico, inclui 4 ou 5 perguntas a mais no meu roteiro. Perguntas que em nada iriam mudar o resultado do meu trabalho remunerado, mas que me dariam uma perspectiva sobre as expectativas e as realidades dessa maternidade intranquila que estava percebendo. Queria saber os modelos de maternidade em que essas mulheres se espelham, queria entender a participação dos maridos e das redes de apoio no geral, a postergação de planos e projetos em função da maternidade e especialmente o sentimento de culpa associado a tudo isso.

No fim terminei com umas sessenta respostas de mulheres falando sobre suas frustrações, sobre planos nunca realizados, sobre camas frias, maridos afundados em estofados aguardando jantares silenciosos, crianças instáveis movidas a gritos e desculpas, tapas e beijos e uma imagem no espelho cada vez mais difícil de aturar.

As mães eram todas da classe C, mas sei perfeitamente, pelo meu circulo social, que, embora os tons sejam diferentes, as angustias não necessariamente são tão dissimilares em outras classes. Mães amorosas que se acham péssimas, mulheres assexuadas, jovens sem perspectivas, presas em dias longos e repetitivos que desembocam em noites curtas não reparadoras. Claro que o dinheiro ajuda a amenizar muitas das dores do dia a dia, mas conheço uma porrada de mãe casada com maridos que conseguem trazer um conforto financeiro para o grupo familiar inteiro, com casas e apartamentos bonitos, arrumados, pintados e sem infestações significativas, com filhos saudáveis e fofinhos e com redes de apoio que conseguem sentir a mesma quantidade de culpa que suas colegas da comunidade.

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Essas mulheres estão doentes?

Ou os doentes somos nós, que como sociedade conseguimos acabar com o período mais sensível e delicado da espécie humana, promovendo um sistema de modelos irreprodutíveis e uma criação desproporcional da nossa prole, favorecendo o sentimento de inadequação e de culpa nelas?

Somos todos culpados. Nossos modelos televisivos mostram mulheres irreais, em jogos de lençóis irreais, em iluminações que não existem, com crianças cenográficas chafurdando na sua riqueza e superficialidade. Quando não mostram uma mãe linda, arrumada e cheirosa que está o tempo inteiro munida da palavra precisa e da brincadeira perfeita, se vangloriando de como seus filhos dão espertos e sua família feliz, temos a visão da super-mãe que chega de um trabalho extremamente importante, desafiador, decidindo os futuros da nação durante o dia e fazendo bolinhos de blueberry à noite, com seus filhos, numa cozinha irreal, com tampos de granito que não existem, com acessórios que não existem. A sensação que fica para essas minhas mães pobres é que eles nunca serão assim. Mas elas tentam. E se frustram. E choram. E ouvem o marido roncar. E acordam no dia seguinte para mais uma dose.

Vejo com preocupação que a mulherada não consegue voltar a suas atividades sonhadas depois da maternidade. Se for uma mulher que se realizava com o trabalho, com a produção e os desafios profissionais, custa muito encontrar os caminhos para fazer isso acontecer de novo sem alimentar uma grande dose de culpa por abandonar seus filhos numa creche ou por não passar o tempo suficiente com eles. Se a mulher se realizava no estudo, na pesquisa, na vida social, na meditação, no artesanato, encontra dificuldades sérias de apoio e de custos para voltar às suas atividades. Em um país sem políticas voltadas à estabilidade da família e a promoção da união familiar, a coisa se complica. Na Escandinávia dão três anos (TRES ANOS) de licença maternidade remunerada (sem falar da licença paternidade, que hoje são 90 dias obrigatórios e mais 90 opcionais), sabem que o investimento no começo da vida é uma porrada de dinheiro que se economiza em problemas de saúde lá na frente.

Cada coroa sueca que eles investem na manutenção do lar nos primeiros mil dias de uma pessoa devolve mais ou menos 10 coroas suecas de economia em menores taxas de suicídio, criminalidade, abuso de substancias, doenças crônicas, abandono escolar e fraudes ao sistema.

Na França eles têm sistemas de babás de graça! De graça! Para os pais saírem se precisarem. Alem de jornadas extremamente flexíveis para as mães e pais que querem fazer horários que combinem mais com as rotinas do bebê que tem em casa. Aliás, a típica mãe francesa deixa seu filho as 9 am na creche e pega as 16. leva pra casa, fazem janta juntos, brincam, contam histórias e as 20 está na cama, momento em que ela abre um vinho e bebe uma taça com seu marido, assiste um filme com ele ou compartilha o seu momento de leitura. trabalhar a noite? culpa? non, mon amour.

As mães europeias têm menos sintomas de estresse maternal. Apresentam menos frustração com a vida de mãe. Uma pesquisa recente da Parent Coach Institute mostra que, para muitas mães americanas, passar tempo com os filhos está lá embaixo na lista de coisas gratificantes a se fazer, depois de lavar roupa ou ir no dentista. Na média, segundo essa pesquisa, 9 de cada 10 mães sentem que não são boas o suficiente para seus filhos e, do grupo de entrevistadas, o dado assustador é que, por semana, as mães passam de duas a três horas pensando se são boas ou não como mães. Isso quer dizer que durante 12 horas por mês, elas estão se questionando e duvidando da sua capacidade de serem boas para seus filhos. As perguntas que fiz para as mães da classe C só corroboram essa informação. Os filhos são uma carga para muitas delas e muitas não se consideram boas mães.

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O que têm as europeias que perdemos aqui na América?

Por que estamos tão preocupados com a nossa capacidade e por que não conseguimos um maior prazer na maternidade? Nossos modelos estão errados. Sabemos disso. Mas por algum mistério, nossas maternidades ocidentais tendem a focar na trivialidade e a mirar o perfeccionismo como medidas essenciais de sucesso. É muito difícil discutir este tipo de assuntos sem gerar animosidades, mas a verdade é que muitas mães estão focando toda sua energia e atenção a coisas pequenas na criação de uma pessoa. Algumas mães se preocupam mais com o fato dos brinquedos serem de madeira ou de plástico em vez de focar na educação sobre a diferença e o respeito por outras raças, credos e origens. Não é necessário se chibatar por ligar uma TV, tem que se chibatar se não conseguir ensinar noções de solidariedade e cooperação para as crianças. Vejo algumas mães preparando festinhas infantis como se fossem reuniões da ONU. Com esse nível de detalhe, complexidade e grandiosidade. Vejo mães sofrendo excessivamente por ter amamentado por menos tempo do que dois anos. Quase pedindo perdão por isso. Por ser essa péssima mãe. Vejo mães que precisam trabalhar alimentando um sentimento de culpa desproporcional por não passar tempo suficiente com seus filhos, sendo que nos momentos juntos são mães carinhosas, justas e educadoras.

Como homem, seria muito injusto e arrogante da minha parte discutir a carga mental de uma mãe e ocuparia um lugar de fala que não me corresponde. Claro que torço pelas mães encontrarem caminhos menos exigentes, menos cansativos e que possam encontrar uma liberdade relativa das expectativas altas e das culpas excessivas.  Torço pelas infâncias serem mais livres e as relações mais gratificantes. Mas não posso entrar em grandes detalhes sobre o que acontece na cabeça dessa mulher pós-moderna, sou um homem. Sou um pai e minha carga é muito menor.

Uma luta solitária

O que posso fazer é conversar com os pais. Dizer que a pressão que paira sobre as mães dos nossos filhos é gigante. O feminismo está ocupado demais tentando defender o óbvio, nestes tempos neo-medievais. A mulherada guerreira está lutando por direitos essenciais, que pareciam tão garantidos faz 30 anos e que hoje, de repente, foram surrupiados e elas enfrentam problemas tão anacrônicos e surreais que parece que a humanidade não aprendeu nada nos últimos mil anos. Continuam vendo bruxas em cada feminista, e as queimam. As mães estão órfãs de feminismo. A luta está ocorrendo em frentes mais essenciais. As nossas mães estão sozinhas, tentando construir redes em um país que viola sistematicamente os direitos mais essenciais. As mulheres estão perante uma quantidade de informação nunca antes vista, que as bombardeia com as desvantagens de cada decisão que toma, da sua responsabilidade única pela felicidade completa de um ser humano, que as confronta com a frustração de não atender todos os critérios da cartilha humanizada. Que as julga pelos crimes de incompetência e cansaço o tempo inteiro pelas decisões que tomam. Que as castiga por não se entregar por inteiro, por querer ter uma vida fora da maternidade e que ainda as condena por reclamar, por ter gente em situação pior e por estar chiando de barriga cheia.

Os homens, enquanto isso, estão num caminho diferente. Nós estamos numa sensação de libertação de antigos modelos, estamos descobrindo a beleza de se entregar, de dar, de oferecer. Maravilhamos-nos todo dia pela nossa capacidade de amar, tão reprimida sistematicamente ao longo dos anos. A nossa masculinidade se redefine, vivemos em constante descoberta e o mundo, tirando aquelas tretas de sono e cansaço natural, é um lugar legal. Somos alimentados com biscoitos o tempo inteiro. Como somos foda. Somos paizões, homens de verdade. Como eu queria que meu marido fosse assim. Entendemos as dinâmicas dos nossos filhos, sabemos o número de calçado deles e conseguimos opinar sobre cólica e chá de casca de maçã com propriedade. O nosso caminho é diferente. Mais gentil. Saímos do lugar comum do macho imbecil e nos extasiamos com as possibilidades.

Enquanto isso a mãe continua com aquela carga histórica de ser mãe, aquela responsabilidade quase exclusiva pela criação de uma pessoa, aquele tribunal das suas decisões e agora complicado por novas teorias e autoras que a acusam de ser a única responsável pela saúde emocional da sua prole. Agora que ela tem uma cartilha humanizada para poder se frustrar caso não consiga/queira/possa tirar um dez humanizado a coisa fudeu de vez. Pede desculpas ao cosmos por ter ligado uma TV… se sente péssima por ter sugerido uma chupeta. Perdeu pontos humanizados por oferecer uma mamadeira.

É muita pressão. A gente, como homem privilegiado e em constante desconstrução, precisa fazer alguma coisa.

Papel do Pai

O nosso papel como pais está cada vez mais claro. Somos responsáveis por um tipo de educação emocional muito delicada. Nossos filhos aprendem as noções de respeito e solidariedade a partir do nosso comportamento no supermercado. Aprendem o comportamento ético e a inteligência emocional vendo os pais interagir no trânsito. Somos responsáveis por mostrar que a força e a potência física são muito menos importantes que a mão amiga e o carinho sincero.  Nossos filhos, com as nossas limitações e nossas incapacidades, estão muito bem cuidados.

Mas e as mães deles? Como estamos agindo com elas? Como estamos aliviando sua culpa e sua carga excessiva de expectativas? Não temos tempo pra perder. É importante que alem da empatia que devemos exercer todos os dias, sejamos práticos na nossa execução. Além de ouvir com carinho empático o desabafo dela, vamos também verificar em que situação estão as toalhas da cria. Estão limpas? Tem um número suficiente? Precisa comprar mais duas? Está sol para poder estender no varal essas toalhas para não pegar bactéria? Pode ser que esse movimento não seja muito harmônico no começo, que seja meio atabalhoado.  Pode ser que a gente compre errado uma toalha ou outra. Pode ser que a mulher ache horrível a toalha que você comprou, mas é um estranhamento inicial que passa logo mais, quando ela vencer seu próprio machismo estrutural. Te garanto.  Vamos ajudar reconstruindo expectativas mais aterradas, mas vamos fazer isso enquanto nos encarregamos de verificar se tem fruta suficiente e em bom estado para a semana toda.

Veja, a carga emocional altíssima da mulher será vencida por ela mesma, em algum momento da sua evolução como mãe, como pessoa, no processo de amadurecimento que todo ser humano deveria, ao menos na teoria, ter. mas se enquanto ela se acha no seu novo papel, se enquanto ela luta para entender a nova ordem, se enquanto ela aprende o valor da sua própria experiência e reduz a importância da comparação com modelos exigentes, se enquanto tudo isso acontece você faz 10% a mais e resolve, soluciona e descomplica, ai você já ajudou demais.

Nossa carga nunca (?) será igual. Mas sempre temos um pouco mais de capacidade de absorver tarefas adicionais, sem ninguém pedir, sem ninguém ter que solicitar, sem esperar um cookie por isso. O que a gente faz pra trazer dinheiro pra casa é urgente, mas a sua verdadeira participação no lar… Aquilo não é urgente, aquilo é importante… e o importante, meu broder, é mais crítico que o urgente.

*Autor: Leonardo Piamonte, pai, psicólogo, e editor do blog Paternidade Sem Frescura, um blog que é o resultado das conversas com outros pais, dos medos e as angustias da paternidade no mundo moderno, das alegrias da entrega e da profunda convicção de que a paternidade ativa é uma arma poderosa para transformar a sociedade. Anseio uma paternidade livre, sem rótulos nem classificações. Uma paternidade cuidadosa, mas fluida. Uma paternidade com responsabilidades e cuidados, sem dogmas. Uma paternidade sem frescura. Link original: http://bit.ly/2BM2w4W

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